Criação de abelhas gera renda e promove sustentabilidade na Bahia

Conheça histórias de meliponicultores e apicultores em Salvador, RMS e recôncavo baiano

Quando se trata de poder garantir a sobrevivência humana, tamanho não é documento. Para que um ser adulto possa sobreviver, são necessários água, oxigênio e alimento, coisas que, apesar de importantíssimas, geralmente são pequenas; afinal, como diz Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe (1943), “o essencial é invisível aos olhos”. A partir daí podemos nos recordar das abelhas, amplamente reconhecidas pelo seu importante papel na polinização, e, consequentemente, na sobrevivência dos seres humanos.

Para que os alimentos cheguem à nossa mesa, além do trabalho dos agricultores, a atuação desse pequeno inseto no processo é fundamental. Ao visitar flores em busca de néctar, as abelhas transportam grãos de pólen, que são transferidos para outras flores. Essa troca é crucial para a reprodução das plantas, permitindo a produção de frutos e sementes. De acordo com uma pesquisa de 2019, elaborada pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBDES) em parceria com a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), cerca de 76% das culturas alimentares do Brasil dependem da polinização por abelhas e outros polinizadores.

O Professor Guido Castagnino, especialista em patologia apícola e professor responsável pelo Meliponário da UFBA, explica que engana-se quem pensa que a importância das abelhas se limita à produção de mel. A diversidade de plantas polinizadas por elas sustentam uma cadeia alimentar complexa, fornecendo alimento e habitat para uma infinidade de outros organismos, como pássaros, mamíferos e insetos. Ao visitar as flores, as abelhas também beneficiam a ciclagem de nutrientes no solo, promovendo um ambiente mais fértil e saudável para o desenvolvimento da vegetação.

Uma história de mel e fé: a tragetória de Helen Caughley

Helen Caughley vende os produtos da Cooperativa na Feira Agroecológica da UFBA (Imagem: Andresa Correa – Especialíssima!)

Neozelandesa de nascimento, a irmã Helen Caughley viu sua vida mudar completamente quando mudou-se para o Brasil, no início dos anos 2000. Ela, que, além de freira, foi professora na Nova Zelândia, se deparou com um país contrastante, marcado por disparidades e ritmo frenético, quando veio para o Brasil. A barreira linguística e a realidade de violência que a cerca, contudo, não foram suficientes para abalar sua fé e seu desejo de fazer a diferença.

No bairro Nova Esperança, periferia de Salvador, Helen encontrou outro propósito em meio ao seu trabalho de evangelização na Paróquia Santo Agostinho. A religiosa é a idealizadora da Cooperativa de Criadores de Abelhas do Brasil (COOPCAB), que reúne criadores de abelhas sem ferrão e oferece cursos de capacitação para a atividade. Além do mel, os cooperados produzem extrato de própolis, samburá (pólen fermentado) e biocosméticos.

Mas o que motivou Helen a criar esse projeto que ajuda tanta gente? A paixão pela apicultura surgiu ainda na Nova Zelândia. Mas a descoberta que modificou sua maneira de se relacionar com o inseto foi a da existência de abelhas sem ferrão no Brasil, das quais ela nunca tinha ouvido falar antes. Fascinada pela beleza e importância ecológica desses pequenos seres, Helen procurou saber mais sobre essa espécie e descobriu que algumas delas integram a lista vermelha de animais com risco de extinção devido ao desmatamento. Em paralelo a isso, os discursos contundentes do Papa Francisco sobre os cuidados com o planeta – nossa “casa comum” – a inspiraram ainda mais no propósito de trabalhar com as melíponas. Foi aí que ela resolveu comprar duas caixas (colmeias) de Uruçu. À medida em que foi criando, alimentando e convivendo com as abelhas, viu como aquele trabalho era satisfatório e benéfico não só à natureza, como ao bem-estar e saúde mental dos próprios criadores.

Assim, Helen começou a divulgar “a palavra” das abelhas sem ferrão. Ela compartilhou seus conhecimentos com moradores do bairro onde mora e, quando se deu conta, já eram mais de 60 criadores. Assim nasceu a COOPCAB, que possui sede em Salvador e endereço de registro em Lauro de Freitas. A cooperativa promove a união entre homens e mulheres pertencentes a comunidades como Nova Esperança, Barro Duro, Areia Branca, Jambeiro e Capelão. Mas nem tudo foram flores nessa trajetória. A falta de recursos financeiros e os desafios burocráticos ainda são obstáculos constantes no cotidiano da cooperativa, que, apesar do sucesso e conquistas nos últimos tempos, sobrevive em meio a muitos empecilhos.

Helen não esconde o quanto se sente grata por fazer a diferença na vida de tantos. Ao refletir sobre sua jornada, afirma que é a fé que a impulsiona a seguir em frente. “São muitos desafios, mas muito me admira este povo que é como é e ainda pode sorrir”, diz ela. A decisão de permanecer no Brasil, mesmo diante de tantas adversidades, é fruto de um chamado interior e do desejo de fazer o bem na vida das pessoas.

Dourado como ouro: oportunidade de fonte de renda

As abelhas sem ferrão produzem menor quantidade de mel, o qual é valorizado no mercado; as Apis, produzem em maior escala e é o que predomina nas prateleiras (Produção – Especialíssima!)

Nos últimos anos, a prática da apicultura tem crescido expressivamente, com a produção de mel, cera, própolis, pólen apícola, geleia real e apitoxina. Segundo dados do Instituto Basileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o faturamento do setor no Brasil teve aumento de cerca de 93% entre 2019 e 2022, ao passar de R$495 milhões para quase R$958 milhões. Esta atividade é predominantemente realizada por agricultores familiares, devido ao baixo custo inicial da produção e fácil manutenção.

Nove das 18 comunidades que integram o Conselho Quilombola da Bacia e Vale do Iguape, espaço de mobilização de políticas governamentais, no município de Cachoeira/BA, produzem mel de Apis. Selma Santos, liderança da comunidade Engenho da Ponte, conta que a apicultura na região foi iniciada por seus antepassados e ensinada ao longo de gerações. No início dos anos 2000, a atividade foi aperfeiçoada, após um projeto de capacitação oferecido pela Secretaria de Agricultura e Pesca do Estado, que possibilitou o uso de equipamentos para manejo adequado pela população, extinguindo a prática da queima das colmeias e da prensa manual dos favos de mel. Equipamentos essenciais para a proteção do apicultor e melhor qualidade do mel passaram a ser utilizados, e a vida das abelhas, preservada.

Selma Santos, liderança da comunidade quilombola Engenho da Ponte localizada em Cachoeira, Bahia, local de produção de mel de apicultura (Imagem: Andresa Correa Especialíssima!

Selma Santos relata que após a formação, foram criados grupos de apicultura, inclusive um grupo de mulheres. “Na época isso foi um desafio muito grande. Os homens achavam que as mulheres não eram capazes de trabalhar com abelhas, por conta do peso das caixas. Nós desafiamos isso e colocamos o nome do grupo Mulheres Abelhas Rainhas, que logo no começo, foi o melhor”. A liderança explica que atualmente existem vários grupos de produção nas comunidades, tanto de mel quanto de ostreicultura e extração de azeite de dendê, dentre outros. Ela acrescenta que “O mel é mais uma fonte de sobrevivência das comunidades”, que vivem da agricultura, da pesca e da venda de seus derivados.

O Coletivo de Jovens Empreendedores do Quilombo Engenho da Ponte é fruto do Conselho Quilombola, organização civil que desde 2005 é um espaço de troca de experiências e mobilização de políticas governamentais para a população da Bacia e Vale do Iguape. “A gente entende que as coisas funcionam através da economia solidária. Isso foi um modelo que os nossos [antepassados] deixaram para a gente”, ressalta Selma, ao detalhar que antigamente as pessoas se reuniam para dar “um dia de ganho” na roça umas das outras. “Aí as novas gerações adotaram esse modelo [da coletividade] e se organizaram como associações, para trazer políticas públicas”, completa.

O professor Guido Castagnino descreve a apicultura como uma importante forma de complemento de renda para agricultores. “Uma das atividades do pequeno produtor que menos demanda horas de trabalho é a apicultura. Em média são seis horas por mês. Ele olha se está tudo bem na colmeia, no final de semana, e volta para o trabalho de capina, plantio e outras atividades”, afirma. Castagnino evidencia a lucratividade do setor, uma vez que o quilo do mel atualmente custa cerca de R$40,00.

Ao passo que uma colmeia de Apis mellifera produz em média 35kg a 40kg de mel por ano, numa escala comercial, podendo ter a produtividade aumentada com manejo e ambiente adequados, as abelhas nativas trabalham numa velocidade artesanal. “Esse mel que vocês compram no mercado é proveniente das abelhas Apis. São abelhas muito produtivas e defensivas. As abelhas que temos aqui [no Meliponário da UFBA], produzem pouca quantidade de mel. Uns dois litros a 13 litros por ano [a depender da espécie]”, exemplifica o professor.

Para além do mel, farinha, azeite e sequilhos de dendê são produzidos pelo Coletivo
(Imagem: Andresa Correa – Especialíssima!)

Ainda assim, a meliponicultura é um setor em crescimento, devido à docilidade das abelhas e à valorização de sua produção. Helen Caughley ressalta a valorização do mel dessas espécies.: “A produtividade é um pouquinho menor, mas o preço também é mais caro. Um recipiente de 100 ml de mel de uruçu nós vendemos por R$30,00, que é o valor médio de 1 litro do mel de Apis”.

Ela conta que o que mais chamou sua atenção quando estava estudando sobre o assunto foram as propriedades medicinais do mel das abelhas nativas e o quão favoráveis elas são para a preservação da biodiversidade. Além de ser um adoçante natural, o mel das nativas possui propriedades antibacterianas, antifúngicas e antioxidantes, sendo utilizado na medicina popular para o tratamento de diversas doenças. Guido Castagnino explica que suas características variam de acordo com a espécie de abelha, mas também com a florada disponível para a produção. “O mel de melipona é mais ácido e picante. Por isso é muito utilizado na gastronomia, para passar na carne e dar um sabor exótico. Está surgindo um grande mercado para seu uso como condimento”.

Além da venda dos produtos in natura, é possível utilizar o mel como ingrediente para gerar bens de valor agregado, seja na culinária ou em cosméticos. Bárbara Sena, diretora administrativa da Cooperativa de Criadores de Abelhas do Brasil (COOPCAB), relata como um projeto de capacitação para a produção de biocosméticos artesanais gerou impacto social no bairro Jardim Nova Esperança, em Salvador. “Tem um grupo de senhoras, a maioria, não alfabetizadas, que aprenderam a fazer biocosméticos com os insumos das abelhas. Elas produzem na cooperativa e os produtos são enviados para as feiras.” A diretora complementa que a maior parte do valor das vendas vai para as cooperadas e, em muitos casos, esta é a única fonte de renda das integrantes do Grupo de Rainhas.

Bárbara Sena possui um sítio em Coração de Maria\BA, que está reflorestando com um pasto melitófito, espécies naturais da região que atraem abelhas nativas. Ela também cultiva cítricos orgânicos, e evidencia os benefícios do manejo das abelhas para o pomar. “Onde tem flor, elas vão. A produção de laranjas dobrou depois que eu coloquei as abelhas. Eu estava conversando com um pessoal que planta orgânicos e eles me disseram que esse ano não produziram ‘uma tangerina’. Eu tive uma mega produção de tangerina, que eu ia toda semana buscar para vender.” Um estudo feito pela Embrapa Meio Ambiente (SP) e pela Syngenta Proteção de Cultivos no Brasil denota o embasamento científico das observações de Bárbara. Nas fazendas de café analisadas, a inserção de colônias de abelhas manejadas aumentou a produtividade e qualidade do cultivo, em relação a lavouras sem polinização assistida.

O manejo

(Vídeo: Produção – Especialíssima!)

O apicultor precisa estar atento a todos os fatores que envolvem seu apiário, como a flora apícola, a presença de árvores ou cercas vivas, sombreamento, topografia, clima, facilidade de acesso e segurança. O professor Guido conta que fornecer alimentos adequados às espécies é fundamental para a sobrevivência das abelhas. “Elas têm uma alimentação muito restrita, limitada a néctar e pólen. Não há um alimento ‘alternativo’, não dá para inventarmos uma ração para as abelhas. Por isso, há a necessidade de ter plantas que produzem flores”, explica.

As mudanças climáticas representam uma grave ameaça à sobrevivência das abelhas nativas. A alteração dos padrões de chuva, o aumento da temperatura e eventos climáticos extremos como secas e inundações afetam diretamente a disponibilidade de flores e recursos alimentares para esses insetos. Além disso, as abelhas nativas, sobrevivem em condições ambientais de biomas específicos e apresentam menor capacidade de adaptação às mudanças ambientais em comparação com a Apis mellifera.

Um dos principais desafios para o apicultor é garantir a continuidade de suas colmeias nos períodos em que ocorre escassez de alimentos, como ao final das floradas. Nessas ocasiões, a perda do enxame pode chegar a 40%. Oferecer uma alimentação artificial é uma forma de impedir que as abelhas abandonem as colmeias. A Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A) aconselha a utilização de farinha de soja, na falta de pólen, e xarope com 50% de açúcar ou mais, para suprir a falta de néctar.

Um reencontro através das abelhas

Começaram o ano de 2018 donos de uma empresa de móveis planejados… no fim, terminaram com as abelhas.

Essa história começa em 2017, quando Ana Paula Santos Silva e seu esposo, Rarison da Silva Lima já trabalhavam com os insetos em Riacho da Onça, no município baiano de Queimadas, na região da Caatinga, com o intuito de multiplicar uma espécie chamada Mandaçaia, uma abelha melípona. Há cinco anos, eles vieram para o litoral, para continuar a multiplicação de espécies e a produção de colônias. Ana conta que, após um almoço informal entre amigos, surgiu a ideia de inaugurar o Meliponário Pólen Dourado como meliponário escola para promover o turismo com as abelhas e a educação ambiental.

Mas como tudo começou, realmente, só quem viveu pode contar. Confira o relato em áudio:

O casal ainda mantém parceria com produtores de mel na Caatinga, mas o trabalho ganhou nova forma após a transição.

Localizado no município de Mata de São João e próximo a um dos destinos mais buscados no litoral da Bahia, Praia do Forte, o Pólen Dourado é um dos Postos Avançados de Reservas Ambientais da Mata Atlântica reconhecidos pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, sigla em português). Nele há dezesseis espécies de abelhas sem ferrão, todas nativas do litoral. A equipe de nove funcionários, envolve guias, pessoal da organização, do estoque, da secretaria e os idealizadores, Rarison, que se capacitou em gestão ambiental, e Ana, em técnico de Meio Ambiente.

A educação ambiental é a base do Meliponário Pólen Dourado. Além dos cursos ministrados, o espaço recebe escolas e contribui com a prática do aprendizado dos estudantes. Também trabalham com meliprodutos (produtos que derivam do mel, principalmente estéticos e de higiene). Atualmente, o Pólen Dourado não possui nenhum incentivo governamental nem faz parte de cooperativas. O apoio financeiro vem, principalmente, de quatro empresas parceiras que patrocinam, por exemplo, os cursos de meliponicultura, que contam com salas cheias e muita gente tendo a oportunidade de acessar esse trabalho.

Em relação a legislação, existem leis de proteção ambiental, da fauna e flora, como a 5.197/676.938/81 e 9.605/98. Porém, Ana Paula relata que o foco está em animais maiores, e não há uma especificidade para os insetos e abelhas: “Não existe nenhuma lei totalmente focada em em insetos. Tanto que aqui nas construções de condomínios, a maioria do pessoal da ambiental que trabalha para proteger os animais não conhece as abelhas brasileiras e focam em animais grandes, que é o caso do bicho preguiça. As abelhas são ceifadas de forma bem triste. Hoje a nossa luta é para que se formasse uma lei em que os insetos entrem junto, com uma força maior e, em especial, as abelhas por terem esse papel tão grande.”

O Pólen é aberto para visitação guiada mediante o pagamento de uma taxa de R$25, com gratuidade para crianças de até 7 anos, idosos a partir de 60, e pessoas com deficiência. O funcionamento é de terça a domingo, com horários pela manhã e à tarde.

Confira a entrevista com Ana Paula Santos Silva:

Ana Santos Silva fechou as portas da empresa de móveis que tinha com seu esposo, e, juntos, fundaram o Meliponário Polén Dourado (Imagem: Reprodução – Instagram)

Especialíssima: Como é a Educação Ambiental na prática?

Ana Santos Silva: “Nós recebemos escolas de Salvador em um percurso guiado de cerca de 45 minutos. As escolas trabalham uma semana antes com abelhas nativas e no dia já chegam curiosos para aprender aquilo que estavam vendo na teoria. O aluno vai conhecendo de perto cada espécie e o que elas representam, o que elas polinizam, quais delas estão em risco de extinção e o que nós podemos fazer para que elas saiam desse risco iminente. No final, apresentamos a diferença dos méis de abelhas brasileiras e abelhas apis mellifera e temos um momento que a gente chama de ‘melipoterapia’, onde os alunos têm um contato direto com a abelha uruçu nordestina. Um trabalho focado na desmistificação, porque

O Pólen Dourado é referência em educação ambiental e preservação da mata nativa (Vídeo: Reprodução – Instagram)

Especialíssima: Vocês vendem esse mel produzido?

Ana Santos Silva: “Fazemos vendas de produtos que são os melis, pólen, própolis, vendas de meliprodutos, como sabonetes, cremes, pomadas. Temos vendas de colônias, que é o dia da multiplicação de espécies, e temos o meliponário escola que fazemos curso de meliponicultura a cada três meses.”

Especialíssima: Você citou o selo da Unesco (RBMA). Como foi recebe-lo?

Ana Santos Silva: “Para adquirir esse selo precisa alcançar alguns pilares que são primordiais. É algo que a gente sempre fez indiretamente, não com o intuito de sermos reconhecidos: a preservação e a conservação da Mata Atlântica, e doar material para pesquisa. Quando a Adriana da APA (Áreas de Proteção Ambiental) veio visitar o Pólen Dourado, ela ficou encantada com o projeto e falou que tínhamos condição de concorrer. Não sabíamos se iríamos ganhar porque tratava-se de abelha, que era algo desconhecido por muitos e para a gente foi muito gratificante. Muitos outros meliponicultores têm se inspirado no nosso trabalho e feito de forma parecida, focado também na educação ambiental.

Estamos concorrendo ao segundo posto, também avançado, na Chapada Diamantina, com o mesmo trabalho que nós fazemos aqui no litoral e já passamos na primeira etapa, estamos torcendo para passar na segunda também.

Especialíssima: Qual impacto vocês acreditam gerar com as abelhas?

Ana Santos Silva: “A meliponicultura e a apicultura têm um impacto direto em toda a biodiversidade.

isso é um fato. As abelhas são responsáveis por um terço de toda a alimentação global. Mais de 70% das frutas são polinizadas por abelhas, que geram o fruto, que consequentemente gera a semente e que a partir daí vão gerando as árvores. E esse é o nosso propósito: apresentar e incentivar as pessoas a preservarem as abelhas entendendo que por mais pequenas que pareçam, por mais insignificantes, elas regem um ecossistema enorme que está ligado diretamente a nossa alimentação.”

Especialíssima: Qual é o impacto do manejo?

Ana Santos Silva: “Conseguimos multiplicar espécies. No caso da Uruçu Nordestina, por exemplo, que está em risco iminente de extinção. Isso causa um impacto muito grandioso, porque eu faço com que essa melipona permaneça no habitat natural e, na maioria das vezes, ela consegue voltar também para a natureza. Existem plantas nativas, por exemplo, que são polinizadas só por abelhas brasileiras. Quando se fala em manejo de apis mellifera, que é a abelha com ferrão, já é outro processo. Uma abelha que não é brasileira e que tem um impacto muito positivo para a biodiversidade, para polinização e para geração de renda, porém não é uma abelha nossa, do nosso país.”

Especialíssima: O manejo depende muito da vegetação preservada na região próxima, ou é possível fazer esse manejo em regiões menos preservadas?

“É uma dependência mútua. Existem algumas pessoas hoje que criam abelhas em apartamento, que a gente costuma dizer que são hobbistas, não são pessoas que trabalham na meliponicultura como negócio ou focado na preservação e multiplicação de espécies. A abelha precisa de vegetação para se alimentar. Eu preciso fazer um mapeamento de onde essas abelhas precisam estar. É uma área que está bastante degradada?

Eu preciso fazer com que aquele campo seja um campo fértil onde ela encontre alimento e consequentemente, a partir desses alimentos, façam o processo de multiplicação. É muito difícil trabalhar com abelhas em uma área muito desmatada, ela não vai encontrar alimento. Os meliponicultores no estado de Sergipe, por exemplo, são guerreiros, eles plantam, eles fazem agrofloresta, para que as abelhas permaneçam vivas, porque uma grande parte [das áreas] é focada para criação de gado, criação de pasto e capim.

Nós estamos vivendo em uma era de muito desmatamento. O crescimento imobiliário tem contribuído muito para que as abelhas, além de serem mortas, percam o seu campo de alimento. É um desafio muito grande hoje para nós que trabalhamos com mais de 2.000 colônias em alguns locais. Mas é isso aí, estamos focados, aí vamos plantando. Enquanto uns desmatam outros plantam, né?”

Especialíssima: Que dicas você dá para quem quer começar a criação de abelhas nativas sem ferrão?

“A dica que eu dou é: conheça as espécies de perto e olhe as abelhas como um ser primordial para a nossa sobrevivência e não como um fator de renda. Quando nós entramos em um negócio como na meliponicultura, e olhamos as abelhas como um aliado, como alguém que está me gerando vida, consequentemente vamos ter respeito, fazer o manejo correto. Quando eu entro visando renda e dinheiro eu vou escravizar a abelha para que ela produza cada vez mais e, consequentemente, lucro em cima delas e aí não funciona. Nós temos um trabalho focado em respeito pelo inseto, o indivíduo que, eu costumo dizer, é o mais importante do planeta.

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