Quem define a permanência?

Relatórios oficiais apontam investimentos na assistência estudantil, mas alunos da UFBA relatam dificuldades para acessar e manter auxílios essenciais à permanência universitária.
Larissa Carneiro, Melissa Carlos e Sophia Souza

Nos relatórios oficiais, os números apontam investimentos, editais e milhares de benefícios concedidos. Fora deles, estudantes relatam dificuldades para acessar auxílios, incertezas sobre permanência e preocupação com os impactos do semestre atípico de 2026.

Foi tentando entender a distância entre os dados institucionais e a experiência concreta dos estudantes que esta reportagem começou. A apuração partiu de uma pergunta simples: o que está sendo dito sobre permanência estudantil na UFBA?

A partir disso, a reportagem analisou documentos oficiais da UFBA, relatórios de gestão e ouviu estudantes, representantes estudantis e setores da universidade ligados à política de permanência.

Para quem atravessa os portões da Universidade Federal da Bahia pela primeira vez como aluno efetivado, a expectativa é de que o serviço público, que inclui cotas e auxílios, garanta integralmente sua manutenção na universidade. Permanecer na UFBA, no entanto, ainda exige uma engenharia complexa, agravada pelo custo de vida da capital baiana, que pulveriza os auxílios institucionais.

Através das histórias descobertas ao longo do processo de escrita, a engrenagem de permanência da UFBA se mostrou mais complexa: em muitos casos, há a triste necessidade de sobreposição de diferentes bolsas.

“Não conte com o auxílio” é o conselho de Eve a estudantes recém-ingressos na Universidade Federal da Bahia. Segundo ela, a demora nos processos de análise e concessão faz com que muitos estudantes em situação de vulnerabilidade precisem buscar outras formas de sobrevivência enquanto aguardam resposta da universidade. A estudante, ainda, chama atenção para os impactos desse cenário na evasão universitária e na permanência estudantil. “Isso é algo que não deveria acontecer. A UFBA é uma das melhores universidades do Nordeste, mas não abraça seus estudantes”, afirma.

Alimentação (Restaurante Universitário e auxílio)

Às 11h40, a fila do Restaurante Universitário já contorna o espaço como um caracol. Entre bandejas prateadas, mochilas pesadas, leques improvisados contra o calor e conversas apressadas, alguns estudantes fazem, silenciosamente, outro cálculo: quanto tempo ainda conseguem permanecer na universidade.

Nas redes sociais, uma publicação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) celebrava a instalação de toldos no Restaurante Universitário para amenizar a longa exposição dos estudantes ao sol durante as filas do almoço. Na legenda, a postagem afirmava: “Nossa luta por um novo modelo de financiamento do Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) seguirá até atingirmos todos os nossos objetivos”.

Conduzida pelas secretarias de Educação Superior (Sesu) e de Educação Profissional e Tecnológica (Setec) do MEC, a iniciativa reúne programas do governo federal para organizar e sistematizar as ações de universidades e institutos federais. O objetivo principal é combater a evasão e fortalecer a assistência estudantil.

Gráfico informativo sobre a porcentagem dos recursos do PNAES em relação ao custo corrente da UFBA. Produção do Especialíssimo/ Larissa Carneiro

Uma das principais modalidades de suporte é o auxílio-alimentação, destinado a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O benefício prevê subsídio mensal de R$ 276 para custeio de até duas refeições diárias, além de acesso gratuito ao almoço nos equipamentos vinculados ao Restaurante Universitário (RU). Segundo a PROAE, 2.349 estudantes foram contemplados em 2025, ano em que mais de 1,3 milhão de refeições foram distribuídas nos equipamentos de Ondina, Canela e São Lázaro.

Uma estudante da UFBA, moradora da Residência Universitária e beneficiária do auxílio alimentação, que preferiu não ser identificada, afirma que o benefício não cobre integralmente suas necessidades e que precisa manter um estágio remunerado para conseguir pagar despesas básicas. Ainda assim, destaca a importância do auxílio alimentação e do RU para conseguir conciliar trabalho e graduação. “A assistência estudantil impacta muito minha rotina porque eu trabalho de manhã e minhas aulas começam no primeiro horário da tarde. Como no RU eu pego só a fila de bolsista, é muito mais rápido”, relata.

Rômulo explica essa superficialidade ao elencar outros problemas enfrentados pelos estudantes: a falha de comunicação da PROAE e dificuldades relacionadas ao funcionamento dos Restaurantes Universitários (RU). “São Lázaro e Canela são operados pela mesma empresa, mas a logística impede que o estudante que recebe o auxílio de um possa utilizar o outro ou o RU de Ondina”, afirma.

Além da logística engessada, os estudantes sofrem com pagamentos atrasados, conforme revela a estudante Eve. Segundo ela, essa demora impacta diretamente as condições básicas de subsistência. “A fome não espera”, afirma. Segundo a aluna, em períodos de atraso, alunos recorrem a empréstimos, pedidos de ajuda e até compartilham nos grupos da PROAE relatos de insegurança alimentar. “Já mandaram foto da geladeira vazia porque a pessoa não tinha o que comer”, relata.

Fachada da estrutura do Restaurante Universitário de Ondina. Produção do Especialíssimo/ Sophia Souza

Por motivos como esse, Gustavo Barbalho, estudante de medicina e egresso do Bacharelado Interdisciplinar (BI) de Saúde, já pensou muitas vezes em desistir da graduação. Morador de Paripe, na Suburbana, ele vive com a mãe, que recebe um salário mínimo, enquanto apenas seus gastos com transporte ultrapassam os R$ 100 mensais. Diante da dificuldade de manter-se na universidade, muitas vezes pensou em desistir, “mas não o fiz porque já tinha vencido outras batalhas”, conta o jovem, que hoje vê na assistência estudantil um impacto positivo, mas insuficiente.

Além das dificuldades com o auxílio alimentação, o gargalo do transporte também é um exemplo utilizado pelos estudantes para explicar o descompasso entre o cotidiano na universidade e a comunicação institucional.

Atualmente, o auxílio transporte da UFBA está fixado em R$ 230,10, valor calculado sobre três meias passagens diárias durante 26 dias úteis. No entanto, o auxílio é calculado estritamente sobre a tarifa urbana de Salvador (R$ 5,90), não contemplando as especificidades de quem mora fora da capital. Alunos que moram em Lauro de Freitas, por exemplo, enfrentam gastos que podem chegar a R$ 22,90 por dia, de modo que o auxílio de R$ 230,10 supre menos de 10 dias de aula no mês. A pró-reitora da Proae, Cássia Virgínia Bastos Maciel, admite que uma restrição orçamentária de R$ 1,5 milhão no início de 2026 impediu que o suporte financeiro acompanhasse adequadamente a pressão do custo de vida e o aumento das tarifas.

Pontos de espera do BUSUFBA no pátio do Instituto de Matemática, em Ondina. Produção do Especialíssimo/ Melissa Carlos

Moradia e infraestrutura

Outra estudante, que preferiu não se identificar, reitera que persistem dificuldades relacionadas à permanência universitária, especialmente em relação aos atrasos de pagamentos adicionais. Ela adiciona, porém, que as condições estruturais da assistência estudantil estão aquém das necessidades dos estudantes. Entre as principais queixas, ela aponta a ausência de café da manhã no Restaurante Universitário e as condições precárias em algumas residências estudantis. “Na vivência, não é tudo muito lindo. Existe uma invisibilidade da assistência estudantil”, afirma.

A moradia universitária concentra as queixas mais graves levadas a Rômulo Araújo, ex-representante da residência estudantil e integrante do Centro Acadêmico Ruy Barbosa (CARB) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE). “As demandas eram críticas: pedidos desesperados de abrigo, conflitos internos insustentáveis e a total inoperância da PROAE na gestão dos contratos”, relata.

Burocracia e o “labirinto documental”

Buscando entender onde a superficialidade e a desarticulação se materializam na rotina dos alunos, a reportagem passou a rastrear as regras de acesso aos auxílios citados pelos estudantes. A partir disso, foi possível compreender o que os discentes chamam de “labirinto documental”: uma barreira burocrática capaz de transformar imprevistos cotidianos em motivos de exclusão. Gustavo Barbalho provou deste entrave quando, após ser assaltado, perdeu o prazo de envio de documentos e ficou o primeiro semestre inteiro sem assistência. “Fiquei sem dinheiro por um tempo… foi bem complicado”.

Outro exemplo de consequências decorrentes do processo burocrático é o caso de um estudante em fase final de curso que, devido a um hiato de três meses entre a colação de grau e a formalização da matrícula, teve seu benefício cortado sem aviso prévio. Essa transição ocorre com estudantes do Bacharelado Interdisciplinar, que, após se formarem, podem ingressar em outro curso mais específico a depender das pontuações adquiridas ao longo da graduação. Esses são os chamados egressos do B.I.  “Ele foi privado de subsistência no momento mais crítico da transição [para o mercado de trabalho]. A assistência estudantil na UFBA hoje é um paliativo que falha justamente onde deveria ser mais forte: na proteção contra as intempéries da própria instituição”, critica Rômulo Araújo, que nos contou o caso.

Para Eve, outro obstáculo para a obtenção dos auxílios pode ser a documentação exigida pela PROAE. A estudante fala mais especificamente do entrave vivenciado por estudantes em situação de vulnerabilidade familiar. “Se você mora com alguém do núcleo familiar mas não tem uma relação boa com essa pessoa, ainda assim você precisa dos documentos dela. E tem gente que não quer ajudar, não quer compartilhar os documentos”, relata.

Impacto financeiro, atrasos e evasão

Pelos corredores da universidade, espaços de descanso, vãos de bibliotecas, filas dos restaurantes, são audíveis os relatos de diversos alunos. “Já pensei em desistir da graduação por questões financeiras”, relata uma estudante. “Principalmente agora, eu penso em desistir. Por isso procurei um estágio remunerado”, diz outra. Para muitos deles, seguir na UFBA depende diretamente da assistência estudantil.

No final de 2025, o Auxílio da Política de Assistência Estudantil (Auxílio PAES) alcançou 770 indivíduos, incluindo Gustavo, com parcelas de R$ 400,00. Diante do custo de vida em bairros que circundam os campi, como Canela e Federação, o orçamento é asfixiante. “Não vai suprir as necessidades básicas”, lamenta o jovem, que hoje depende temporariamente do seguro-desemprego para pagar o aluguel, ciente de que o fantasma da evasão espreita o fim das parcelas. “Hoje a assistência causa um impacto positivo, porque se não fosse esse dinheiro, assim que eu parasse de receber meu seguro-desemprego, eu ia ficar totalmente desamparado”.

Gráfico informativo sobre a porcentagem dos alunos beneficiados por auxílio da PROAE na UFBA. Produção do Especialíssimo/ Larissa Carneiro

Essa precariedade espreita especialmente os calouros e aqueles em cursos integrais, onde a carga horária inviabiliza o trabalho remunerado, transformando os atrasos nos pagamentos em gatilhos diretos para a evasão universitária.

Eve relata que a ausência de previsibilidade financeira afeta diretamente a permanência estudantil. Para ela, o prazo adotado pela PROAE para realização dos pagamentos é incompatível com a realidade dos estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. “A gente entende as dificuldades orçamentárias e o subfinanciamento das universidades federais, mas entender não quer dizer que a gente vai se conformar e aceitar essa situação”, afirma.

Transparência e comunicação institucional

A busca levou também ao acompanhamento nacional realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o PNAES, em 2025, que incluiu a escuta de estudantes de universidades federais de todo o país.

Gustavo Barbalho afirma que há um abismo entre o cotidiano dos alunos e a comunicação institucional. Para o estudante, existe uma falta de transparência da universidade, especialmente nas redes sociais. “Às vezes, quando a gente olha o Instagram ou a página, parece que está tudo mil maravilhas, mas existem problemas que eles botam por debaixo do pano. Em vez de explicarem atrasos, dizem apenas que o processo “está assim”, sem serem totalmente transparentes”, afirma.

A pró-reitora da PROAE rebate a percepção dos estudantes acerca da comunicação, no entanto. Segundo a gestora, as ferramentas de transparência, como o portal que detalha contratos e processos de pagamento, são subutilizadas: “A sensação relatada é de que não existe transparência… eu acho que a gente devia pensar por que não nos sentimos responsáveis por acessar esses dados?”. Ainda, Cássia Bastos afirma que o debate sobre a aplicação dos recursos muitas vezes é utilizado em períodos eleitorais, ignorando o processo educativo necessário para que os próprios alunos monitorem as contas públicas cotidianamente.

O acompanhamento realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) em universidades federais também passa distante do debate cotidiano entre estudantes da Universidade Federal da Bahia, segundo Rômulo Araújo. “Essa informação não chegou ao debate público da comunidade acadêmica”, afirma. Para ele, a discussão sobre orçamento e execução da assistência estudantil ainda permanece restrita e pouco acessível à maioria dos alunos.

Gestão e orçamento

Rômulo Araújo afirma ainda que a política de assistência estudantil da universidade é precária e pulveriza os recursos para alcançar o maior número possível de beneficiários. “Embora a PROAE seja frequentemente citada como referência, na prática ela não atende as necessidades reais dos estudantes. A gestão institucional opera sob uma lógica de quantidade sobre qualidade, o que resulta em um atendimento superficial e ineficaz que sacrifica a profundidade do suporte necessário para a permanência integral”, disse.

O papel da Proae, segundo a pró-reitora, vai além da simples transferência de renda; o órgão gere uma estrutura complexa de oito contratos (incluindo Restaurante Universitário, Busufba e creche) e uma folha de pagamentos de R$ 24,8 milhões por ano, operada por uma equipe de 71 trabalhadores. A gestão técnica afirma enfrentar um acúmulo crônico de pendências financeiras: o pagamento de uma única bolsa exige um rito burocrático de cerca de 20 dias, que se torna ainda mais difícil porque os repasses do MEC chegam em fatias reduzidas (1/18) em vez do valor mensal integral esperado (1/12), fazendo com que as contas de um mês invadam o orçamento do próximo.

Gráfico informativo sobre o valores da assistência estudantil por tipo na UFBA. Produção do Especialíssimo/ Larissa Carneiro

Em uma nota oficial da UFBA, postada em 16/04/2025, a universidade afirmou que “para este ano, a Lei Orçamentária Anual (LOA) destinou à UFBA recursos insuficientes para o cumprimento de seus compromissos”. De acordo com a administração da universidade, apenas uma fração (1/12) do orçamento é liberada mensalmente. No entanto, desde a data dos fatos, a situação foi agravada “com a redução do valor das liberações mensais para todos os órgãos federais por força do Decreto Nº 12.416, de 21 de março de 2025, que estabeleceu limite mensal equivalente a 1/18 do total das verbas previstas na LOA”.

Com um déficit acumulado de R$ 25 milhões — sendo R$ 10 milhões apenas para fechar as contas do ano corrente sem deixar dívidas de contratos para o exercício seguinte — a pró-reitoria argumenta que o foco primário e prioritário é a manutenção dos auxílios existentes, dificultando a criação de novas modalidades ou, ainda, de contemplar casos específicos.

Enquanto a gestão universitária tenta equilibrar o déficit acumulado e a burocracia dos repasses fracionados do MEC, a experiência dos alunos permanece apartada do otimismo dos relatórios oficiais. Diariamente, por volta das 11h40, a fila do Restaurante Universitário volta a contornar o espaço como um caracol, servindo de cenário para que novos e antigos estudantes retomem o mesmo cálculo silencioso de quanto tempo ainda conseguirão permanecer na universidade. As histórias aqui relatadas reforçam que a verdadeira permanência exige mais do que auxílios pulverizados; exige que a universidade, para além dos números, deixe de ser um labirinto de incertezas e finalmente passe a abraçar, de fato, seus estudantes 

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