Primeiro trimestre de 2026 tem os maiores índices de feminicídio da série histórica e em meio a isso uma trend que simula a prática se populariza
Ana Beatriz Soares, Bianca Rosario, Gabriela Martins
Uma mulher é morta a cada 5 horas no Brasil. O primeiro trimestre de 2026, é marcado como o período mais letal na história para as mulheres. Em meio esse cenário, uma trend que estimula a violência às mulheres se populariza. “Caso ela diga não” ou “Se ela disser não”, os vídeos publicados em 2023 viralizaram nas redes sociais no início deste ano e passaram a ser alvo de investigações do Ministério Público.
Nos vídeos um homem se ajoelha, tira um anel imaginário do seu bolso, se preparando para pedir sua namorada fictícia em casamento. Ao ouvir a negativa, simula socos, chutes e disparos de arma de fogo. Em outros, a encenação termina com um esfaqueamento fictício. Os vídeos impulsionados por perfis com mais de 1,5 milhão de seguidores, chegaram a marca de 196 mil curtidas antes de serem removidos definitivamente pela plataforma.

Embora apresentados como humor pelos criadores, os vídeos reproduzem algo presente nos casos de violência de gênero: a associação entre rejeição feminina e violência masculina. Dados do DataSenado mostram que, entre 2023 e 2025, em 51% dos episódios de violência contra a mulher analisados, o agressor estava inconformado com o término da relação no momento da agressão.
1 mulher é assassinada
a cada 5 horas
no Brasil
Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, caracteriza o feminicídio não apenas como um crime em que a vítima é mulher, mas quando o crime é cometido por homens só pelo fato da vítima ser mulher. Enquanto a maior parte das mortes violentas de homens são geralmente associadas a conflitos interpessoais, disputas criminais ou violência urbana, os feminicídios ocorrem majoritariamente em contextos de relações íntimas, atuais ou passadas. Na Bahia, o número destes crimes aumentaram desde a tipificação do crime.
Ela foi esfaqueada apenas por dizer não
Enquanto a trend se popularizou, os casos de feminicídio chocaram o país, como é o caso de Alana Anisio Rosa, de 20 anos. A jovem foi atacada com mais de 15 facadas na própria casa, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, após recusar um pedido de namoro. O agressor, Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, foi detido pela polícia e teve a prisão preventiva decretada pela Justiça.
Luiz Felipe conheceu Alana em uma academia e passou a enviar presentes, sem ter qualquer tipo de relação com ela. Ele chegou a se declarar para jovem e pedir que ela fosse sua namorada, Alana recusou e Luiz começou persegui-la. O homem invadiu a casa da jovem e a atacou com facadas. Alana foi levada ao hospital em estado grave, e precisou passar por cirurgia. Devido à gravidade das lesões, foi colocada em coma induzido. A jovem já teve alta e retornou para casa.
Karielle Lima Marques de Souza também foi atacada depois de uma negativa a Rolemberg Santos de Pina. A mulher de 23 anos, foi morta junto com o filho de 6 anos, dentro da própria casa. O caso aconteceu em Ibirapitanga, no sul da Bahia. O homem era vizinho de Karielle e teria esperado o marido da jovem sair para atacar a casa.
Assim como na trend viral, as mulheres foram atacadas depois de negar pedidos de namoro ou para sair de seus agressores. A história das jovens não são casos isolados. 2025 acumulou o maior número de casos desde a tipificação do crime de feminicídio, foram 1.568 mulheres mortas, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A trend existe desde 2024 e tem feito vítimas também de violência cibernética. Ao criar um espaço para comentários e ataques misóginos.
