Dentro do coração de Salvador, há vozes que gritam e estatísticas que não as alcançam, são as vidas e as memórias locais que lutam pelo direito de permanecer no Centro Histórico
Iago Vieira, Ester Vieira, Rachel Nascimento
Cercada por casarões coloridos dentro do cartão postal de Salvador, sentada em uma cadeira vermelha na rua Porta do Carmo, Elisangela Nunes observa o espaço como quem se preocupa com algo, mas tenta esconder dos turistas com um sorriso. Ao ser abordada pela reportagem, foi questão de minutos para que começasse a chorar. Com a voz abafada como quem precisava respirar, começou a pedir desculpas: “Eu já chorei o dia todo! Deus mandou vocês procurar a pessoa certa”.
Elisangela secou as lágrimas e, devagar, tirou do bolso do avental vermelho um papel dobrado, entregue a ela minutos antes da nossa chegada. Era uma notificação do Tribunal de Contas da Bahia (TCE-BA). A associação que ela ajudou a fundar, movida pela crença de que o bairro onde nasceu merecia ser defendido, devia R$699.939,76 aos cofres públicos, valor referente a irregularidades na prestação de contas de repasses estaduais (Processo TCE/002975/2021). O olhar vago dizia tudo. Ela não sabia o que aquilo significava.

A ambulante e moradora do centro histórico utiliza o turismo como principal fonte de renda. Salvador, que se reinventa no que os gestores chamam de retomada do ouro, viu sua receita turística saltar para R$20,7 bilhões em 2024, comparado aos R$13,2 bilhões do ano anterior, segundo o Anuário do Observatório do Turismo de Salvador. Mas os números não contam tudo. O Centro Histórico concentra essa contradição em cada pedra das suas ladeiras, onde o turismo colore as fachadas, enche as vielas de música e projeta a cidade para o mundo ao mesmo tempo em que empurra para fora quem sempre esteve lá.
Elisangela, também conhecida como Lôra do Pelô, vende nas ruas turísticas suco e drink de cacau. Seu apelido guarda a luta pela permanência das famílias dentro do bairro. A história de resistência é mais velha que ela mesma, iniciada ainda através de seu pai, Antônio Batista, que veio a óbito em 2016, também conhecido como Um Real ou Sergipe.

Batista alimentava a população carente do Pelourinho oferecendo marmitas. O valor cobrado de R$1,00 — motivo do apelido —, estava ligado à realidade dos moradores do bairro. Mesmo os que não podiam comer, eram alcançados pela bondade do que parecia ser um enviado de Deus; as marmitas eram entregues sem qualquer cobrança. Elisangela cresceu aprendendo com o pai; é nele que se inspira para continuar lutando e ajudar as próximas gerações: “Meu pai, junto a minha mãe, deixou um legado!”.

Sua família presenciou, desde 1980, quando Elisangela ainda era criança, o avanço da revitalização do Pelourinho. O movimento foi intensificado entre 1992 e 1995, durante a primeira etapa do Programa de Recuperação do Centro Histórico, conduzido pelo governo de Antônio Carlos Magalhães. Segundo tese de doutorado defendida na UFBA pela arquiteta Laila Mourad, cerca de 2,1 mil famílias foram removidas, e apenas 3,1% dos imóveis reformados manteve função residencial. O que era um bairro densamente habitado foi convertido em polo turístico. Atualmente, o programa segue em sua 7ª etapa.
A voz de quem vive o Pelourinho
As ruas do pelourinho, distante do glamour do turismo, são tomadas pelas melodias dos ventos. Casas fechadas e cupins que pareciam corroer a história de quem também viveu por ali mostra o contraste; não havia um turista no que parecia ser outra realidade. Adiante, ouvimos o barulho de uma vassoura roçando no chão se misturar com o som de criança sorrindo. Era Tatiane de Oliveira, 48, limpando a calçada do comércio enquanto sua filha brincava.
Quando nos aproximamos, Tatiane recolheu a vassoura e a equilibrou sob o braço esquerdo. Havia algo naquele gesto; a pausa de quem interrompe um trabalho porque encontrou a oportunidade que precisava. As palavras vieram antes mesmo do convite. Ela falou dos moradores que foram saindo do Pelourinho depois que o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) passou a oferecer indenizações de R$6 mil, a depender do imóvel. “Um mínimo que não dava nem pra comprar uma casa”, falou com o cansaço contido de quem carrega uma história velha. A outra saída era resistir. Mas quem resistia, ela disse, perdia a casa sem direito a nada.
O órgão, visto como um dos problemas por Tatiane, é responsável pela preservação do Centro Histórico. O incentivo à cultura e ao comércio não acompanha o direito à permanência de quem se identifica com cada monumento levantado no Bairro. Somente no primeiro trimestre de 2024, de acordo com dados divulgados pela Secretaria de Comunicação da capital, os espaços culturais do Centro Histórico ultrapassaram 200 mil visitas, índice positivo para a economia local.
Para Tatiane, porém, esses números não dizem tudo. O incômodo não é com o turismo em si, mas com a lógica por trás dele. “Eles tiram as pessoas que nasceram e se criaram dentro do Centro Histórico”, disse Tatiane à reportagem. Assim como Elisangela, ela cresceu no Pelourinho e hoje cria uma filha entre as mesmas ladeiras. “Eles não podem acabar com as vidas que existem dentro do Pelourinho”. Ela continua: “o meu pai dizia que a gente é o trilho e eles são o trem. Eles passam e a gente fica aqui para contar mais uma história de quem passou pelo Pelourinho”, conclui a moradora.
Caso recente, de acordo com o portal CNN, ocorreu no dia 28 de março de 2025, com a desocupação do espaço cultural RES Inexplicata, uma das organizações responsáveis pela realização de eventos como Flipelô, São João do Centro Histórico, Natal Salvador e Projeto Viva o Centro. Antigos ocupantes do casarão situado na Rua Frei Vicente, nº 14 , tiveram suas atividades interrompidas devido a irregularidade da concessão de uso, segundo o IPAC. A mando do Ministério Público da Bahia, o órgão associado passou a fiscalizar imóveis comerciais e institucionais, para garantir a regularização e uso devido.
O Pelourinho é um só lugar partido ao meio. De um lado, os índices positivos que chegam nos relatórios. Números que, para quem mora ali, parecem falar de outra cidade. Do outro, os que ficaram, e que precisam continuar contando o que os números apagam. Em 2003, cinco mulheres decidiram que resistir não bastava, era preciso organizar. Fundaram a AMACH, a Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico, e foram, conquista por conquista, tornando o bairro habitável. Conseguiram 107 famílias com moradia, um posto de saúde e uma cozinha comunitária que nasceu das mãos e da visão de Batista. A associação hoje está quieta. Mas Elisangela não está. Ela tenta reanimar o que foi construído, recuperar as atividades que por anos protegeram o bairro do que insistem em fazer dele.

José Carlos, 58, ex-presidente da AMACH, escolhe a palavra com cuidado: “essência”. É o que diz que o grupo perdeu. A falta de ações concretas, de incentivos, a mudança silenciosa de objetivos foi afastando a associação da realidade que deveria mudar, deixando o Pelourinho naquilo que ele chama de abandono. Não o abandono visível, das fachadas que desabam, mas o outro, o dos que ainda moram ali e não aparecem nos planos. Lembra das praças prometidas, dos parques que ficaram no papel, rejeitados com a justificativa de que virariam “fumódromo para maconheiros”, como se o lazer, para quem ficou, fosse um perigo a ser contido. Por baixo de tudo isso, Carlos enxerga uma ideia que nunca precisou ser dita em voz alta: “pobre não deve ficar no Pelourinho”. Ele deixa a frase pousar antes de completar; “E não está muito longe não.”

A reportagem abordou Carlos apressado para o trabalho em frente ao elevador Lacerda. Mesmo com o tempo curto, ele aponta para o espaço aberto em frente ao monumento já considerado como o maior elevador urbano do mundo e denuncia: “aqui será um centro de convenções, mas poucas pessoas sabem”. A crítica do morador vai além, quando mostra as demais ruas glamurosas com fachada de cafeterias, hotéis e sorveterias: “esses prédios já foram comprados por empresas privadas. Até a prefeitura terá que mudar de lugar”. A expulsão, para o morador, continua como sempre, mas agora com menos resistência da população local.
Moradores de papel

Acompanhamos Elisangela até o casarão que ocupa desde 2007, quando conseguiu provar ao Estado ser uma moradora antiga do bairro. Os becos estreitos, atingidos pelo silêncio, nos guiavam até a Rua 28 de Setembro, onde logo apareceria o edifício amarelo, esse que nenhum turista despertou interesse em conhecer. A cor em ruínas, as janelas outrora quebradas e que agora serviam de “varal”, mostravam que ali existia vida. Não somente a de Elisangela, seu marido e quatro filhos, mas das 8 famílias que também fazem parte da história do Pelourinho.
A porta azul, aberta para nos receber, revelou a baixa iluminação que tomou a parte interna do casarão. As paredes brancas aos poucos perdiam o brilho. A placa, colocada pelo Estado quando o espaço virou moradia popular, já se rendia ao desgaste do tempo. O metro quadrado que levava aos apartamentos era ainda mais reduzido devido às duas caixas d’água colocadas na entrada, única garantia de abastecimento para os moradores.
Os degraus nos levaram ao apartamento de cinco cômodos ocupado pela família que Elisangela formou. Ao entrar na casa, não demorou para que a moradora caminhasse até o quarto e retornasse com uma pasta rosa entre seus braços. Abriu-a e folheou os registros de seu pai e de posses antigas entregues pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia (CONDER), que assegura o direito de habitação aos antigos moradores por períodos renováveis de 5 a 10 anos. Elisangela, quando desabafa, carrega na voz o medo de perder toda aquela papelada, a única segurança para sua família.
O tempo é o maior problema. Esse mesmo tempo que corrói as casas, as histórias e os moradores, também ameaça devorar os papéis. É com eles que Elisangela luta. Se a sua voz não é suficiente, é preciso carregar a prova material para que o Estado não arranque seus sonhos. É o risco de morar onde a posse não é vitalícia e a intervenção pode ocorrer a qualquer momento. Como ela mesma desabafa: “Eles têm a caneta e o papel na mão. Qualquer hora podem dizer que está na hora de cair fora”.

Para contornar essa vulnerabilidade, o Projeto Canteiro Modelo, iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) com universidades, como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), realizou uma oficina sobre Concessão de Direito Real de Uso (CDRU), orientando os moradores sobre como garantir a permanência no bairro de forma legal e contratual. O objetivo do projeto é oferecer orientação gratuita e qualificada para conservação e reforma de moradia popular localizada no Centro Histórico ou em áreas tombadas.
Na abertura da oficina, acompanhada pela reportagem, uma dinâmica simples escancarou o problema: os 12 moradores presentes foram questionados sobre a sensação de segurança proporcionada pelo documento emitido pelo órgão. A resposta foi quase uníssona, uma sequência de nãos, acompanhados de desabafos que denunciavam uma luta ainda inacabada pelo direito de permanecer no Centro Histórico. “Você mora no imóvel que você não tem a garantia que é seu, que você não sabe se vai deixar para a sua família, porque geralmente é dessa forma que nós fazemos. Então, não!”, diz Dona Najara, 47, ao votar.

A oficina continuou em um segundo momento com o estudante de Direito pela UFBA Enzo Gabriel Lago, 22, explorando como funciona um contrato e suas “pegadinhas”. “A partir desse momento que vocês começam a entender quais são as armas que vocês podem utilizar para ir à guerra”, disse ao público presente. As armas, ali, eram palavras: posse, propriedade, concessão, cartório, cláusula, contrato. Enzo pediu paciência. Sabia que era muito exigir de pessoas que já estavam há anos na luta, que já tinham cansaço acumulado no corpo e na voz. Mas sem entender as ferramentas, explicou, a guerra vira um caminho em zigue-zague; muito esforço, pouco avanço.
A força é estar, ocupar um espaço, respirar dentro dele, chamar de seu pela presença cotidiana. A propriedade é outra coisa. É o papel registrado, a escritura que transforma a permanência em direito reconhecido pelo Estado. Entre uma e outra existe um abismo que o poder público aprendeu a habitar com conforto. O documento emitido pela CONDER, esclareceu Enzo, não fecha esse abismo. O imóvel continua público, pertencente ao Estado. O que ele concede é o uso: o direito de morar por um período determinado, renovável, sob condições. Uma garantia possível, mas que depende inteiramente do que está escrito nas cláusulas, e do que foi deixado de fora.

O tempo era o primeiro nó. Se o contrato fixar um prazo, a insegurança se renova junto com ele, e os moradores voltam ciclicamente à estaca zero. Mas se a cláusula determinar tempo indeterminado, a concessão pode atravessar gerações passando aos herdeiros, como deseja Dona Najara. A transmissibilidade, porém, não é automática: precisa estar prevista explicitamente no papel, com uma cláusula que o Estado assine e não possa ignorar depois. Por isso Enzo insistia na leitura atenta de cada linha do contrato. É nos detalhes que o direito se esconde ou se perde.
O segundo nó é o registro. Publicar no Diário Oficial do Estado é um passo, reconheceu Enzo, mas não é suficiente. A publicação garante transparência ao ato do governo, prova que não há irregularidade, que o Estado está cedendo o uso de um imóvel público dentro da legalidade. Mas a proteção real, aquela que sustenta quando o Estado resolve mudar de ideia, só vem com o registro em cartório de imóveis. É a fé pública, o selo que confere ao documento uma força que ninguém pode contestar, nem o próprio governo. Sem ele, estimou Enzo, a garantia vale cinquenta, não cem. E cinquenta, para quem mora onde mora, não é suficiente.
Foi aí que ele chegou ao ponto mais delicado, e mais esperançoso. Se o contrato estiver registrado em cartório e o Estado decidir retirar os moradores, ele estará descumprindo a própria palavra. E quem descumpre um contrato deve indenizar, precisa responder. O Estado, lembrou Enzo, não faz favor a ninguém ao garantir moradia, ele cumpre uma obrigação constitucional. Se assinou, tem que assumir. E se tentar voltar atrás, os caminhos são o Ministério Público, a Defensoria Pública, o judiciário. Enzo foi honesto, a justiça é lenta, o sistema é falho, nada é simples. Mas o papel registrado é, ao menos, uma trincheira. E trincheiras, para quem luta há décadas para não ser varrido do lugar onde nasceu, valem cada palavra escrita.
2 km de ruas turísticas
Mais do que o famoso suco de limão com coco do Milton e da estátua de papel do eterno rei do pop, apenas uma ladeira separa o Pelourinho da mistura de cores vibrantes que atrai tantas pessoas ao Santo Antônio Além do Carmo. As ruas do bairro carregam o charme de uma cidadezinha do interior, exalando a reconfortante sensação de estar em casa. Os casarões antigos de arquitetura colonial portuguesa, tesouros protegidos pelo IPHAN, são uma vista bem-vinda para os olhos de quem está acostumado com os edifícios comerciais e monótonos da cidade.
Durante o dia, moradores conversam à porta de casa ou espiam, pelas altas janelas, o lento movimento da rua, ocupada apenas por vizinhos e alguns poucos turistas. O comércio permanece de portas fechadas, enquanto a rua, silenciosa como a madrugada, parece despertar aos poucos. É somente quando o sol se põe na Baía de Todos os Santos que a calmaria dá lugar ao vai e vem energético da vida noturna. O público diverso que se dirige ao Santo Antônio já o encontra de portas abertas, com mil e uma possibilidades de como aproveitar a noite. Bares, restaurantes, pizzarias, pousadas, sebos, galerias, brechós, cafeterias atraem curiosos e visitantes fiéis que caminham pelo chão de pedra.
O preço da fama
O bairro do Santo Casamenteiro entrou no radar dos turistas e soteropolitanos por volta de 2010, quando passou por um processo de valorização. Paralelamente, surgem as primeiras ondas de protesto dos moradores, com coletivos como o “SOS Santo Antônio”. Os moradores se reuniam em assembleias e estendiam faixas nas janelas dos casarões para denunciar coisas como falta de espaço para estacionamento, o barulho excessivo dos novos estabelecimentos e a desordem causada pelas festas.
Se o cenário parece familiar, talvez seja porque o mesmo episódio se repetiu em 2018, com os eventos “Feira da Cidade” e “Vamos ver o pôr do sol” em 2022, com a queixa de aglomerações e festas irregulares nas ruas. Em janeiro de 2025, a revolta dos moradores voltou a estampar as sacadas dos casarões coloridos, com faixas que variavam em caligrafia e cor, mas traziam o mesmo desabafo: “No bairro da sua festa mora gente!”.
A manifestação denunciava a realização de eventos de grande porte e festivais de música na região, como o Festival “Som do Sabor”. Ainda no mesmo ano, os residentes protestaram contra a inclusão do bairro no circuito oficial do Carnaval. Meses viraram anos de reclamações e pedidos não atendidos, até que o conforto da região tão popular para os visitantes deixou de existir para os seus moradores.
De seu casarão vermelho e amarelo, Tânia Maria do Nascimento Bispo, 67, observa as transformações do lugar onde vive há 35 anos. A professora e doutoranda em Dança pela UFBA reconhece as vantagens trazidas pela valorização da região, mas confessa sentir falta da privacidade e quietude do local. “Aqui era um era um bairro muito intimista, muito reservado, e hoje está escancarado. Uma coisa que a gente perdeu também foi a privacidade de deixar janelas abertas. O silêncio da gente já passa a não ser aquele silêncio de você escutar a noite chegar”, relata.
Ao longo dos anos, entidades como o Ministério Público da Bahia (MP-BA) e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur) foram constantemente acionados pela comunidade do Santo Antônio. Apesar de algumas vitórias dos moradores, como o veto à inclusão do Carmo no circuito oficial do Carnaval de Salvador e o cancelamento de shows de grande porte, a atuação das autoridades ainda deixa bastante a desejar.
As ruas também sofrem o impacto das festas constantes. Quando o burburinho das conversas cessa, os estabelecimentos fecham suas portas e os frequentadores voltam para casa satisfeitos, resta aos moradores lidar com os rastros de tanta agitação. Papéis, latas e copos espalham-se pelas ruas na mesma proporção da euforia de pouco antes.
“[Há] uma falta de administração da prefeitura de bairro, porque, já que se tornou um bairro popular e muito bem frequentado, a limpeza devia ter uma assiduidade maior, a gente sente falta disso. Essa limpeza tem que ser feita no decorrer da festa. A Limpurb tem que estar aqui”, defende. A Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana de Salvador) é o órgão da Prefeitura responsável por gerenciar os serviços de limpeza e coleta de resíduos na cidade.
Nascido e criado no bairro, Rodrigo Guedes, 37, denuncia a falta de infraestrutura urbana e de ações eficazes para adequar o bairro à aglomeração e à rotina boêmia que tomaram conta do Santo Antônio. “O bairro não possui um posto policial fixo para nos trazer maior segurança, não possui cestas de lixo o suficiente para serem distribuídas. Quando tem festas grandes, faltam banheiros químicos para evitar que o público urinem nas portas dos moradores. Existe um exagero de som por conta de algumas festas que não respeitam o horário estipulado tão pouco a vizinhança, que é em sua grande maioria composta por idosos”, relata o artesão e florista.
O ritmo noturno impacta também um dos direitos mais básicos de quem reside: o direito de estacionar perto de casa. “Quando a gente fala em tirar paz, é que na verdade precisa ter uma organização. É um bairro que tem moradores que não tem garagem. Quando tem uma população maior que vem para aqui de carro, os nossos carros ficam sem ter onde colocar. Se eu for trabalhar, eu não trabalho de carro quando tem movimento na rua. Eu vou de uber, porque eu sei que quando eu chegar eu não vou ter onde colocar o carro”, relata Tânia.
Aos 85 anos e com quase cinco décadas de vivência no bairro, Ilza da Silva Simões não se incomoda com o barulho e a rotina animada do Santo Antônio. Pelo contrário, ela conta que gosta do movimento e da alegria caótica das festas. No entanto, relata que a popularidade do bairro cobrou um preço alto para a comunidade, pesando direto no bolso de quem mora na região: “Aumentou a água, aumentou a luz, aumentou o aluguel, aumentou muito. Muito mesmo”.

Na principal via, a rua direita, dezenas de placas de “vende-se” ou “aluga-se” fixadas nas fachadas dos sobrados parecem ser parte da decoração dos sobrados. Os dados mais recentes do Censo Demográfico do IBGE, publicado em 2023, apontam que o subdistrito do Santo Antônio (que engloba o bairro e outras 11 localidades vizinhas) sofreu uma redução de 23,7% no número de habitantes entre os anos de 2010 e 2022.
A evasão populacional que tirou o Carmo da lista dos cinco bairros mais habitados da região não decorre apenas da alta no custo de vida, segundo os entrevistados. Os moradores relatam que muitos casarões pertenciam a pessoas idosas e que, após o falecimento dos proprietários, os herdeiros preferiram vender ou alugar os imóveis.
Segundo dados de avaliação apresentados em uma entrevista com especialista do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia, uma casa simples no bairro, que antes custava o valor de um imóvel popular, agora alcança a marca de 1 milhão de reais. O preço acompanha o balanço do Índice FipeZAP, que posicionou Salvador como a capital com a maior alta no preço de venda de imóveis no Brasil em 2025, com variação de 16,25%.
Assim, o local tem transacionado de um perfil residencial tradicional, com forte presença de famílias e idosos, para uma área de alta especulação imobiliária, voltada ao investimento estrangeiro. “A gente perdeu a vizinhança, porque os vizinhos foram saindo e o bairro foi sendo adotado pelo comércio”, reforça Tânia.
Atualmente, o mapeamento socioespacial realizado por urbanistas da UFBA indica que o bairro assume o posto de principal palco da boemia sofisticada de Salvador, substituindo o tradicional Rio Vermelho na preferência de quem busca uma experiência de interior com infraestrutura de metrópole.
Esse diagnóstico técnico, que serviu de base para as diretrizes de preservação da Portaria 297 de 2025 do IPHAN, reconhece as profundas transformações de uso e a nova dinâmica social que consolidaram a região como um polo de lazer e serviços. A intensificação desse interesse reflete-se na hotelaria, que encerrou 2025 com 66,51% de ocupação média, o melhor resultado dos últimos 15 anos, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia em 2026.
Nesse cenário, os negócios familiares de moradores antigos dividem espaço com galerias de arte, pousadas e restaurantes de alta gastronomia que se instalaram nos casarões históricos. Rodrigo observa que essa transformação não chega a apagar o comércio tradicional, mas impõe uma concorrência desleal. “Essa renovação no comércio sempre atinge o que já existia. Os comerciantes locais que vivem com seus pontos mais simples e tradicionais, sentiram o impacto com a amplitude dos novos locais que surgiram e surgem. Mas eles resistem e se mantêm de pé, pois têm seu público fiel”, comenta.
Por outro lado, Daniel Lopes, comerciante e morador que acumula 17 anos no Carmo, enxerga um cenário de incentivo, onde pequenos comerciantes aproveitam a alta circulação de pessoas para abrir seus espaços. “Não estão saindo, muito pelo contrário. Aqui não tinha interesse, agora [eles] têm interesse em abrir, ‘porque fulano tá abrindo, porque fulano chegou aqui e viu que uma portinha tá dando para abrir’. Ao invés de sair, porque outros estão chegando, estão agregando”, afirmou.
‘Onde não há luta, não há vitória’
As ruas coloridas do Centro Histórico despertam admiração e curiosidade em quem passa por elas, seja turista ou local. Entre casarões coloniais, ladeiras históricas e janelas voltadas para a Baía de Todos-os-Santos, é quase inevitável fantasiar sobre como seria viver em um cenário tão bonito. No entanto, a beleza do cartão-postal esconde batalhas travadas diariamente pelos moradores de bairros como o Pelourinho e o Santo Antônio Além do Carmo. Batalhas como as de Elisangela e Tânia, que geralmente ficam de fora dos guias turísticos e das campanhas publicitárias, mas precisam ser ouvidas.
A preservação de um polo cultural tão importante para a cultura baiana também significa defender o direito de seus moradores de habitar e viver com dignidade nesses espaços. A luta dos moradores do centro histórico continua. Para Tatiane, os moradores brigam por melhorias, são eles a raíz do pelourinho. Elisângela observa o futuro com otimismo. O olhar que vaga pelas casas que remetem a um passado familiar possibilita acreditar em um mundo que tudo será possível, para sua família e amigos.
O legado é acreditar, mas não parados, pois onde não há luta, não há vitória. O atual Centro Histórico continua sendo o mesmo que o Rei do Pop escolheu para gravar o clipe They Don’t Care About Us; se os perfis mudaram, as gerações continuam as mesmas, e o grito que ecoa pela boca dos que ali vivem compõe uma nova velha melodia: “Michael… Michael… eles ainda não ligam pra gente”.
