Livros infantis: não é brincadeira de criança

Um gênero que durante muito tempo não era visto com importância, se mostra como um dos mais complexos para todo autor que quer escrever para o seu público, mas sem passar da linha 
Anderson Gomes, Rebeca Novaes e Uelton Fael Souza

Foi durante a Bienal do Livro no Rio em 2017 que Ziraldo deixou claro: escrever para crianças é difícil. Segundo o criador de obras como,”Turma do Pererê” (1960) pela revista Cruzeiro, “O Menino Maluquinho” (1980) e “Uma professora muito maluquinha” (1995), ambos pela Cia. Melhoramentos, demora-se muito tempo para encontrar a medida certa de escrever para o público infantil, por isso seria um absurdo dizer que a literatura infantil é menos importante que a feita para adultos. 

Um ano antes, em 2016, a escritora Ana Maria Machado já havia dito que escrever para crianças e para adultos é completamente diferente. Para a escritora, escrever para crianças é difícil por elas terem um menor repertório de leitura, o que dificulta o uso de referências de outros textos e obras.

Ana Maria Machado, escritora. Foto: Guito Moreto/O Globo

O gênero engrenou de vez na literatura brasileira ainda no século XX graças a Monteiro Lobato, que entre todas as suas controvérsias, deixou um legado com “Reinações de Narizinho” e o “Sítio do Picapau Amarelo”. Surgido numa época em que tudo ainda era mato, a literatura infantil vem demonstrando, nos últimos anos, bastante crescimento no país. Em 2024 a categoria de livros infantis teve um faturamento estimado em R$546 milhões de um valor total de R$ 4,2 bilhões, segundo a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Em 2025, esse faturamento teve um aumento de 5,3%, rendendo R$574,5 milhões.

No livro “Literatura Infantil: Teoria, Análise e Didática” de Nelly Novaes Coelho, ela estabelece a literatura infantil como arte, “um fenômeno de criatividade que representa o mundo”.

A autora conta que apesar de atualmente a literatura infantil ser vista com grande relevância, durante muitos anos, por ser um produto destinado a crianças, esse tipo de literatura era tratada como um gênero menor, visto apenas como um brinquedo, tal como uma bola de futebol ou uma boneca. 

Renata Kalid, professora da Unifacs, que coordena um projeto de extensão voltado para a criação, mediação e circulação de livros infantis, o Confabulab, conta que para escrever literatura infantil é preciso estudar a infância, como o lugar em que a criança circula e a classe social que ela faz parte.

“Estudar estas nuances da infância, a faixa etária, o nível de escolaridade, porque depende do perfil dessa criança”, disse. 

A escritora Marina Colasanti, em entrevista para a revista Quindim quando perguntada em que infância ela vivia em suas obras disse que a ideia de infância não era algo simétrico, que não existe um conceito para ela, “Cada criança se aproximará do meu livro a seu jeito, e que cada uma é uma, com seu universo particular, independente da idade.”

Tema tabu não é só para adulto

Indo muito além do universo mágico e fabuloso que a literatura infantil possa trazer, muitos dos autores do gênero usam justamente do universo infantil para trazer à tona discussões de temas sensíveis na perspectiva das crianças. Em “A Bolsa Amarela” (1976) da escritora Lygia Bojunga, renomada autora pelotense, ganhadora do Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infanto-juvenil, em 1982, conta a história de Raquel, uma menina de 10 anos que, num contexto de ditadura militar, se sente incompreendida pela família e por isso guarda dentro de sua bolsa amarela três desejos: crescer, ter nascido menino, para ganhar os privilégios do gênero, e ser escritora. 

Lygia Bojunga, escritora. Foto: Casa Lygia Bojunga/Estadão

Se na década de 1970, época em que o Brasil vivia a ditadura militar e muitas obras literárias sofreram com a censura por serem considerados subversivos ou marxistas, o livro de Lygia circulou normalmente pelo país, em maio deste ano, a obra acabou virando alvo de controvérsia em uma escola militar no Distrito Federal. Pais alegaram que o conteúdo era inapropriado para crianças e por isso pediram a suspensão do livro, usado como material de apoio.  

Em entrevista ao jornal O Globo, Lygia diz que as pessoas que criticaram o livro é porque não o leram, não entenderam o que estava acontecendo com Raquel, personagem principal. “Se lessem, veriam que desde o ínicio tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais”, conta. A autora ainda disse, que para esta obra, ela não trouxe um discurso feminista de forma proposital, e sim apenas o desejo que ela tinha desde criança, ser escritora e independente.

Foi no ano de 1978, também em plena ditadura militar, que Ruth Rocha ousou em publicar “O reizinho Mandão”, pela Editora Pioneira. Uma obra que, voltada para o público infantil, trazia como tema principal o período sombrio que o país vivia. O livro foi lançado quando o AI-5 (Ato Institucional nº5) decreto que concedia poder a censura e perseguição política, ainda estava em vigor. 

Em entrevista ao PublishNews a autora conta que sentiu um pouco de medo, principalmente porque João Carlos Marinho, também escritor voltado para o público infantil e amigo da escritora, já havia sofrido com a repressão das autoridades na época.

“Eu sabia que isso podia acontecer, mas, não sei. Eu não sou muito corajosa não”, disse. 

Olhando para o contexto contemporâneo, a representatividade se tornou um dos tópicos mais importante na literatura infantil, por isso questões envolvendo o debate racial, se tornaram temas trazidos constantemente em livros na perspectiva de uma criança, como “A Cor de Coraline”, de Alexandre Rampazo pela Editora Rocco, que concorreu ao Prêmio Jabuti em 2018. No livro, Coraline, uma menina negra, se vê intrigada, quando Pedrinho, um menino branco, lhe pede emprestado um lápis cor de pele. A garotinha de doze anos, olha para os seus doze lápis de cor e se questiona qual seria esse lápis cor de pele. Após a repercussão causada pelo livro, a empresa BIC lançou a marca de Lápis Premiun Tons de Pele que integra todas as cores de pele que existem na sociedade.

Para Ricardo Ishmael, não existe tema tabu, para ele todos os assuntos podem ser abordados em obras infantis. “Eu falo, por exemplo, no “Menino de Asas Invisíveis”, sobre a morte. A criança perde a sua avó. O mundo dela ruiu. Mas nós lidamos com isso na nossa realidade”, explica. Ele conta que falar sobre assuntos, por mais sensíveis que sejam, é também uma forma de fazer a criança se sentir acolhida.

Ricardo Ishmael, jornalista e escritor. Foto: Michel Cabral

“É a possibilidade de uma criança identificar-se com a história e entender que ela não tá só no mundo”, disse.

Renata explica que a infância é muito mais do que a idade, é o período em que a criança está descobrindo o mundo a sua volta. “A criança olha as coisas sem muitos preconceitos, porque a cada coisa que ela olha, ela vê o mundo pela primeira vez e isso é maravilhoso”, conta. 

Sem moralismos

Renata conta que é importante que os livros para o público infantil não tentem dar uma lição de moral e, sim, deixem em aberto para que a criança desenvolva sua própria interpretação daquilo que lê. 

“Não subestime, não tente uniformizar, deixe que a criança chegue às suas conclusões, conduza, tenha uma linguagem aberta, a criança gosta de entrar na experiência da descoberta por ela própria”, explica.

No livro, “O que é Literatura Infantil” de Ligia Cademartori, ela afirma que apesar da relação existente entre a literatura infantil e a educação formal, pelo fato dela formar novos leitores e estimular a imaginação das crianças, as obras literárias do gênero não devem ser criadas e nem serem vistas apenas como um material pedagógico, pois antes de tudo, se trata de uma obra criativa, de arte. Por isso, segundo a autora, os livros infantis devem fazer com que os seus pequenos leitores vivam “uma aventura com a linguagem e seus efeitos”. 

Esse didatismo foi algo criticado, recentemente, pela escritora Ana Maria Machado durante a Feira do Livro de São Paulo. Segundo a autora, a literatura é arte, linguagem e excede um projeto pedagógico. 

Para Ishmael, a literatura existe para confundir, incomodar e inquietar. O escritor argumenta que não é porque se trata de um público infantil que eles devem ser tutelados em tudo. 

“É mais encantadora a história que deixa mais perguntas do que respostas. Porque estimula o exercício da fabulação, da criação. Um livro se torna aquilo que ele é, a partir do outro, de como ele recebe e reelabora essa história. Se eu der o final pronto, eu tiro dessa criança a possibilidade da fabulação”, conta.

A criança e o escritor

Quando se pergunta a um escritor como ele chegou nessa profissão, respostas diferentes vão vir, alguns vão dizer que era seu sonho desde criança ou que encontrou a paixão no meio da vida, mas para Ricardo, o destino fez com que ele chegasse nesse ponto. “Não foi um projeto, não foi um plano meu, eu não arquitetei me tornar um escritor especialmente de literatura para as infâncias, as coisas caminharam nessa direção. Talvez tenha sido escolhido, algumas pessoas falam que é destino”, afirma.

O escritor também relembra que todo livro infantil que escreve vai ser uma reconexão com seu passado como um menino de Serrinha, no interior da Bahia.

“Na verdade, eu pensava que a minha trajetória não seria na literatura. Essa trajetória diz mais a respeito da reconexão com aquele menino que eu fui em Serrinha, uma criança muito encantada pelas palavras, pelas letras, uma criança que buscava beleza em tudo”, conta o autor.

Para Ishmael é esse sopro da infância que o mantém conectado ao presente. “É essa injeção de gás e de ânimo que me dá fôlego para todo dia, por exemplo, no jornalismo. Estar falando das questões todas da nossa realidade, tão duras para a maioria das pessoas, para decodificar essa realidade cruel, injusta, desigual. A infância me dá esse gás, me dá o fôlego, me dá o sopro de coragem que eu preciso”

Ricardo não consegue estabelecer um grau de dificuldade maior ou menor se escrever para crianças é mais difícil que para adultos, para ele são processos distintos.

“Para o adulto eu uso outros mecanismos, quando escrevo para o adulto, eu curto, é uma outra onda. Quando eu tô ali debruçado sobre os textos para as infâncias, é uma outra experiência igualmente gostosa, igualmente encantadora e duplamente desafiadora, porque sempre é desafio”, afirma

Hora da Leitura

Feira do Livro montada em um shopping da região central de Brasília. Foto: Lucas Nanini/G1

Livros que recomendamos:

  • Mamãe Zangada. Juta Bauer – Editora Companhia das Letrinhas
    • Em Mamãe zangada, Jutta Bauer transforma um momento comum da infância ― levar uma baita bronca da mãe! ― em uma emocionante metáfora sobre a complexidade das relações familiares. Quando leva uma bronca, o pequeno pinguim literalmente se despedaça, e cada pedacinho de seu corpo vai parar em um lugar diferente: no espaço, no mar e até na floresta. Será que ele vai conseguir se juntar novamente?
  • Quando as Coisas Desacontecem. Alessandra Roscoe e Odilon Moraes – Editora Gaivota
    • O que acontece com as coisas quando elas desacontecem? Essa foi a pergunta de Gabriela em uma manhã, enquanto observava o vai e vem das ondas. A menina esmiúça algumas respostas: semente desacontece para ser planta, nuvem vira chuva, e onda, espuma. Mas e as pessoas? E as ideias? Para onde vão? Em uma narrativa sobre morte, luto e transformação, os questionamentos acontecem em uma bela poesia do encontro entre Alessandra Roscoe e Odilon Moraes.
  • O Passeio. Pablo Lugones e Alexandre Rampazzo – Editora Gato Leitor
    • O empurrãozinho de um pai faz uma menina superar o medo de andar de bicicleta sem rodinhas, e dá início a um passeio singular. Durante um longo trajeto, a filha revela as sensações e emoções que vive em cada momento na companhia de seu pai, e estas a fazem perceber como de uma hora para outra tudo pode mudar.
  • Bárbaro. Renato Moricone – Editora Companhia das Letrinhas
    • Era uma vez um bravo guerreiro que montou em seu lindo cavalo e saiu em uma perigosíssima jornada. Ele lutou contra serpentes e gigantes de um olho só, sobreviveu a flechadas, enfrentou leões monstruosos e plantas carnívoras, até que… Ué, ele de repente parou no meio do caminho e começou a chorar! Para saber o motivo da tristeza repentina do nobre cavaleiro, as crianças terão de chegar ao final desta história criativa e divertida de Renato Moriconi, contada apenas com ilustrações.
  • A Raiva. Blandina Franco e José Carlos Lollo – Editora Pequena Zahar
    • “No começo era só uma raivinha à toa. Uma coisa boba, que nem tinha razão de ser, mas que, mesmo assim, era.” Todo mundo já sentiu raiva em algum momento da vida. Ela pode surgir das coisas mais simples, como de um olhar de alguém meio de lado, um sorriso diferente, uma palavra torta… Até que tudo passa a alimentar essa raiva e logo ela se torna uma fúria!
  • Pinóquio. O livro das pequenas verdades . Alexandre Rampazzo – Editora Boitatá
    • O que você vê quando se olha no espelho? Pinóquio, o célebre boneco de madeira que conta lá suas mentirinhas e busca todo o tempo tornar-se ‘um menino de verdade’, talvez esteja apenas tentando corresponder às expectativas dos outros. Se ele fosse responsável como o Grilo Falante, ou bondoso como a Fada Azul, poderia, então, tornar-se real?
  • Concerto de Piscina. Renato Moriconi – Editora Gato Leitor
    • Neste livro-imagem, um concerto acontece. O palco é a piscina, e cada página tem seu som, seu silêncio e seu tempo, acompanhando os movimentos de um maestro. É impossível o leitor não se contagiar com o ritmo, a dança e a música que esta obra visual orquestrada pelo Renato Moriconi provoca.
  • Uma Chapeuzinho Vermelho. Marjolay Leray – Editora Companhia das Letrinhas
    • A reinvenção de uma história clássica aguça a percepção das crianças de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista. No caso deste livro, a Chapeuzinho ingênua e inocente do conto tradicional se transforma numa garota corajosa e perspicaz, que engana um Lobo Mau incapaz de causar medo na menina. Tendo início na parte do conto em que o lobo está prestes a papar a garotinha, que então faz as clássicas perguntas a respeito daqueles olhos, orelhas e dentes tão grandes, esta versão da história tem um final inesperado, muito divertido. A inversão de papéis traz ao livro uma graça única, ao passo que o traço infantil das ilustrações materializam o tom sintético da narrativa.

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