Entre o erudito e o popular: qual é a cara da música sinfônica baiana?

Como o clássico se reinventa em uma terra que já tem muito a dizer

Por Beatriz Nonato, Juliano Franca e Kauane Souza

Partitura de violinista durante ensaio da OSBA. Foto: Juliano Franca (CENTRALIZAR TODAS AS LEGENDAS E COLOCAR NO TAMANHO H6)

Orquestras são, historicamente, símbolos associados à chamada “alta sociedade” — ao universo clássico, ao erudito, ao suntuoso. Durante muito tempo, permaneceram distantes, quando não completamente inalcançáveis, para grande parte da população, sendo familiares a um grupo bastante restrito. Não por acaso, os compositores mais celebrados da música clássica são, em sua maioria, russos, franceses, austríacos ou oriundos de outras regiões da Europa. São, também, majoritariamente brancos.

A reflexão que norteia esta reportagem é a seguinte: como uma orquestra se comporta na Bahia? Na terra da guitarra elétrica, do pandeiro, dos tambores, do Olodum e dos blocos afro, em um lugar que desafia padrões eurocêntricos e possui uma identidade cultural impossível de ignorar. Não há como uma orquestra existir aqui sem ser atravessada pelos sons, pelos instrumentos e pelas expressões da música popular. Não há como sair ilesa dessa influência.

A Bahia é um estado profundamente marcado por suas raízes culturais, que se manifestam nos mais diversos campos: música, artes plásticas, culinária, arquitetura, moda, entre tantos outros. As expressões que coexistem em seu território ganham contornos singulares em relação às de qualquer outra região do país. Banhada pelas águas da Baía de Todos os Santos, a Bahia carrega em cada esquina a herança de seu passado ancestral africano e as manifestações artísticas e populares que dele emergem.

As orquestras sinfônicas que atuam nesse contexto dificilmente poderiam seguir outro caminho senão refletir esses elementos na forma como se apresentam. A fusão entre referências eruditas e a produção musical afro-brasileira e popular torna-se inevitável. Orquestras como a Afrosinfônica, a Rumpilezz, a Neojiba e a OSBA estão entre as principais representantes desse movimento.

Cordas, Metais e Atabaques (SEM INICIAIS MAIÚSCULAS EM PALAVRAS NO MEIO MEIO DO TEXTO)

É nesse território fértil que surgem coletivos não convencionais. A Orquestra Afrosinfônica, dirigida pelo maestro Ubiratan Marques, e a Rumpilezz, idealizada por Letieres Leite, bebem diretamente da fonte da música afro-baiana — especialmente das tradições oriundas dos terreiros. Essa influência se manifesta, entre outros aspectos, na incorporação de instrumentos de percussão como os atabaques, que carregam consigo séculos de memória e resistência.

Paulo Alcoforado, diretor da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), destacou a importância das Orquestras Pretas e a influência delas na música brasileira contemporânea. “Essas Orquestras Pretas têm como especificidade abordagens próprias da sonosfera dos terreiros do Recôncavo Baiano, desenvolvidas por meio de pesquisas, composições autorais, arranjos e regências que alcançam repercussão e estabelecem diálogos no Brasil e no exterior. Para ser mais claro: essas orquestras influenciam o pensamento e a criação musical no Brasil contemporâneo”, afirma.

Ao contrário do que se poderia supor, o cenário de orquestras na Bahia é um dos mais emergentes — e dos mais singulares — do país. O que esses grupos têm produzido nas últimas duas décadas são criações que dificilmente encontrarão equivalente em qualquer outro lugar do mundo. Mais do que isso: têm conquistado um público que, a cada concerto, se aproxima mais desses espaços.

A incorporação da música popular junto à clássica é uma das grandes responsáveis pela redução da distância que as orquestras geralmente mantêm do grande público. A Orquestra Sinfônica da Bahia é um exemplo concreto de como é possível fazer o clássico dentro de uma roupagem essencialmente baiana.

Reinaldo Oliveira, fã das orquestras baianas, destacou a importância da valorização da cultura popular e da aproximação das formações com o público: “Admiro o trabalho das orquestras baianas, principalmente a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) e a Orquestra Afrosinfônica, porque elas valorizam a cultura popular e têm trabalhos que buscam a aproximação com o público, pois apresentam em seus repertórios obras que paqueram com o dia a dia do povo, fugindo um pouco do erudito, mas sem perder a fantasia das orquestras”, afirma.

Carlos Prazeres regendo a OSBA em ensaio aberto. Foto: Juliano Franca

Carlos Prazeres, maestro da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), defendeu uma maior aproximação entre as orquestras e a sociedade, destacando a necessidade de tornar esses espaços mais representativos para o público: “Eu entendo que uma orquestra sinfônica é a extensão de uma sociedade. Se a sociedade baiana não se enxerga, ela passa a ver a orquestra como um extraterrestre. Acredito que a gente tem que mudar inclusive o nosso vestuário. As pessoas não andam na rua de smoking, casaca, de fraque. Ninguém anda assim. Então, quando você chega na sala de concerto e vê pessoas vestidas desse jeito, você pensa: isso não sou eu. Isso não me representa”, afirma.

Para Prazeres, o interesse do público baiano pela orquestra tem crescido de forma consistente. Ele atribui esse movimento ao sentimento de pertencimento gerado pela inclusão de elementos mais próximos à realidade do espectador. “A gente tem mais gente da classe C hoje consumindo a OSBA do que gente da super elite. Acho que a OSBA hoje é uma orquestra que faz essa ponte entre classes justamente porque ela gera na sociedade uma sensação de pertencimento. É muito bonito as pessoas perceberem que a orquestra é uma coisa plural e que pode interagir com outros tipos de música”, diz o maestro.

Em abril e maio de 2025, a Orquestra NEOJIBA realizou a maior turnê já feita por um grupo sinfônico brasileiro na China. Sob a regência do maestro Ricardo Castro, mais de cem jovens músicos baianos levaram o repertório das Américas — com forte identidade brasileira, incluindo o berimbau — a grandes palcos do país asiático.

Esdras Salatiel no São João Sinfônico da OSBA. Foto: Caio Lírio

Sobre o que diferencia uma orquestra baiana lá fora, o músico da NEOJIBA Esdras Salatiel afirma: “Orquestras europeias vão ter mais facilidade em repertórios europeus, por já nascerem escutando. Se você pegar qualquer jovem numa escola da Bahia, ele sabe fazer uma base do pagodão. Isso mostra que uma sociedade pode ser reconhecida de acordo com o que ouve. E como na Bahia somos uma mistura de tudo, do árabe ao europeu, do norte-americano ao africano, tudo influencia”, diz o músico.

Para Esdras, essa mistura não é apenas cultural, é corporal. “O baiano tem o molho. Este molho é o nosso diferencial: conseguimos dar swing em tudo, justamente pela nossa mistura. Fomos colonizados, escravizados, e tudo isso gerou um ritmo diferente. Há quase trezentos anos, Beethoven já escrevia linhas que hoje são linhas de pagodão. Está no nosso sangue”, afirma.

Negligência estatal: quem cuida dos jardins da música baiana

A singularidade das orquestras baianas não se limita à sonoridade. Em muitos casos, a própria existência desses grupos é resultado de um esforço contínuo de resistência cultural. A luta não diz respeito apenas à inclusão de ritmos e instrumentos como contraposição à hegemonia do clássico europeu — há também uma batalha por fomento, por incentivo e por custeio.

Nesse contexto, em 19 de maio de 2026, políticos e nomes de peso da música baiana se reuniram no auditório da Assembleia Legislativa da Bahia. Entre os presentes estavam Lazzo Matumbi e Gerônimo Santana, que uniram suas vozes às das orquestras na defesa da publicização e do financiamento desses projetos.

Lazzo destacou a importância de valorizar iniciativas que vão além do entretenimento e deixam um legado cultural para as próximas gerações: “Precisamos nos olhar no espelho e nos enxergar como um todo, e parar de aplaudir só o entretenimento. O entretenimento é muito bom, mas acaba. O que as orquestras baianas estão fazendo fica, produz, faz com que os novos lá na frente reproduzam melhor”, afirma o músico.

Ao longo das últimas décadas, iniciativas como a Afrosinfônica e a Rumpilezz construíram repertórios próprios, desenvolveram pesquisas sobre ritmos afro-brasileiros e transformaram referências vindas dos terreiros, dos blocos afro e das manifestações populares em linguagem sinfônica. Ainda assim, seus criadores frequentemente apontam dificuldades para manter projetos que dialogam diretamente com a identidade cultural brasileira.

Para o maestro Ubiratan Marques, esse cenário revela uma contradição estrutural: enquanto instituições dedicadas à tradição europeia dispõem de estruturas consolidadas de financiamento e reconhecimento, projetos nascidos da cultura popular brasileira ainda precisam lutar para garantir espaço e continuidade. “Tivemos uma audiência pública onde buscamos um apoio permanente para garantir a continuidade do nosso trabalho e a existência das orquestras. Sabemos da força que temos e da história que construímos, somos uma prova disso, e estamos próximos de completar 30 anos de trajetória. A gente precisa cuidar dos nossos jardins”, diz Ubiratan.

Ubiratan Marques cede entrevista na Casa da Ponte. Foto: Beatriz Nonato

A crítica não se dirige à música clássica nem às orquestras tradicionais. O questionamento está na forma como determinados repertórios e referências culturais foram historicamente valorizados em detrimento de outros. Em um estado cuja identidade foi forjada por influências africanas, indígenas e populares, ainda é comum que manifestações locais precisem provar constantemente sua relevância.

Ubiratan Marques, músico e fundador, da Afrosinfônica, critica a falta de apoio às iniciativas que valorizam a cultura brasileira e apontou uma desigualdade na distribuição de recursos destinados às orquestras: “As orquestras recebem fortunas para continuar existindo e difundem uma cultura que não é nossa dentro do nosso próprio país. Enquanto isso, as iniciativas que representam a cultura brasileira de fato não recebem nenhum tipo de apoio. Isso mostra que existe uma resistência gigantesca, e que ela ainda vai continuar existindo”, diz.

O paradoxo se torna especialmente evidente na própria Bahia: estado que exportou para o mundo nomes como Dorival Caymmi, Gilberto Gil e Caetano Veloso e movimentos como os blocos afro e o samba-reggae, mas que ainda debate a necessidade de fortalecer as instituições dedicadas à pesquisa e preservação dessas mesmas matrizes culturais.

Ubiratan defende que as orquestras brasileiras devem dialogar mais com suas próprias realidades culturais e representar as histórias dos seus territórios: “Aqui no Brasil, cada lugar tem a sua orquestra sinfônica: Aracaju, Recife, João Pessoa. Já pensou se cada uma dessas orquestras falasse do seu quintal? Se tivesse um repertório contando sobre Ariano Suassuna, Alceu Valença, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, dialogando de verdade com o seu povo? Quando a Orquestra Afrosinfônica sobe no palco, é um ato heróico: uma orquestra toda preta, em um palco, diante de um público 90% preto. É gigantesco”, afirma o maestro.

Orquestras que ensinam

Nesse âmbito, há um recorte quase inevitável: as orquestras afro baianas fazem da sinfonia também um instrumento da diáspora. O sucesso da NEOJIBA, de Letieres Leite à frente da Orkestra Rumpilezz e de Ubiratan Marques à frente da Orquestra Afrosinfônica não se mede apenas em números ou indicações a premiações internacionais.

O sucesso dessas iniciativas se dá quando jovens — em sua maioria negros e periféricos — garantem uma formação musical que vai do erudito ao popular, da sinfonia europeia à baiana.

Um sobrado de três andares no Largo do Pelourinho, logo à frente da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, abriga a Casa da Ponte: fundação sem fins lucrativos criada por Ubiratan Marques para o ensino e a difusão da tradição afro no universo das orquestras. A igreja foi construída no século XVIII pelos próprios escravizados, como espaço de devoção e resistência. Não é coincidência que seja justamente nessa vizinhança que uma instituição dedicada à música negra encontrou morada. 

Igreja Nossa Senhora Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Foto: Beatriz Nonato

Num ambiente marcado por forte senso de comunidade, a Casa da Ponte coordena o Núcleo Moderno de Música. Durante cerca de uma hora em que a reportagem esteve no local, o espaço se revelou acolhedor e sem qualquer traço de intimidação — algo não raro em outros ambientes ligados à chamada “música séria”. “Você já tomou café?”, ouve-se entre os membros da casa. A reportagem foi recebida com afeto, carinhosos “boa tarde” e sem questionamentos sobre quem éramos ou o que fazíamos ali.

Mesmo com mais de trinta anos de estrada e uma importância notável no cenário cultural brasileiro, o maestro Ubiratan Marques dialoga de igual para igual com duas jovens estudantes. É esse o espírito do lugar.

Músicos ensaiando na Casa da Ponte. Foto: Beatriz Nonato

Ubiratan Marques, presidente da Casa da Ponte, destaca a importância da música como ferramenta de transformação e relembra a criação da Casa da Ponte como um espaço de acesso e formação musical. “A Casa da Ponte surge porque eu não tive oportunidade lá atrás. Eu sei o que a música fez comigo e o que ela pode fazer com outras pessoas. Não é sobre uma música com a ideia de que você precisa tocar por uma obrigação, mas sobre permitir que as pessoas tenham contato com o instrumento e encontrem alegria nesse processo. Eu falo isso para os professores: o que a gente quer aqui é que as pessoas venham e saiam com um sorriso no rosto”, afirma.

E com esse sorriso no rosto, a Casa da Ponte formou, somente entre 2018 e 2020, mais de quinhentos músicos. A Rumpilezz também mantém um espaço dedicado à formação de jovens músicos. A NEOJIBA, por sua vez, nasce primordialmente como projeto de ensino — e é justamente dessa vocação educativa que emerge boa parte do que essas orquestras têm de mais transformador.

Um pouco dos dois

O diálogo entre o clássico e o popular é parte do cotidiano da Orquestra Sinfônica da Bahia. O grupo transita com naturalidade entre Mozart e a música brega — e essa amplitude não é um desvio de rota, mas uma escolha estética e política.

A presença do popular, no entanto, não diminui o interesse do público pelo clássico, pelo contrário. O maestro Carlos Prazeres conta que, ao chegar à Bahia, não esperava encontrar tanto entusiasmo por música erudita. Ele admite que chegou ao estado “muito sudestino, ainda cheio de preconceitos”. “Talvez eu esperasse encontrar esse interesse em Florianópolis, por ser uma cidade de colonização mais alemã. Mas veja só: Florianópolis não tem uma orquestra. E a Bahia apresenta hoje uma orquestra com fã-clube. A sociedade baiana abraçou a orquestra de uma forma que tem que ser estudada no mundo inteiro, isso é uma coisa que eu não vejo em outros lugares”, afirma.

A Afrosinfônica, por exemplo, estabelece esse diálogo ao trazer os blocos afro para integrarem a composição da orquestra. No projeto “Ponte Para a Comunidade”, Ubiratan Marques e os 25 músicos da orquestra receberam num só concerto o Ilê Aiyê, o Malê Debalê, os Filhos de Gandhy, o Olodum, a Banda Didá, o Pracatum, o Cortejo Afro e o Grupo Étnico Cultural. A estes, somaram-se ainda artistas como Seu Mateus Aleluia (remanescente do grupo cachoeirano Os Tincoãs) e a BaianaSystem. Já a Rumpilezz soma parcerias com artistas como Caetano Veloso e Lenine.

A fã da OSBA, Marineide Costa afirma que “as orquestras baianas desmistificaram a ideia de que a música clássica é um privilégio de determinadas classes sociais. A rápida lotação de seus eventos gratuitos comprova que o interesse do público popular é vasto, bastando apenas que lhe seja dada a oportunidade de acesso”. Ela ainda adiciona que “contemplar o público diverso reagindo aos grandes clássicos, enquanto se presencia a fusão entre o erudito e o popular, torna a experiência da OSBA um fenômeno de cidadania cultural e renovação estética”.

Ao fim, o que se percebe é que a música sinfônica baiana não é simplesmente uma adaptação local de um modelo importado. É uma reinvenção. É o clássico que aprendeu a dançar no ritmo do ijexá, que deixou o atabaque ocupar o mesmo palco que o violoncelo, que abriu as portas para que a plateia se veja refletida no palco. processo de retomada identitária para o interior de uma forma artística historicamente eurocêntrica — e transformá-la por dentro. É, em última análise, um ato coletivo de pertencimento — e de resistência.

“A Bahia que vive pra dizer, como é que se faz pra viver” – Gilberto Gil

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